Foram os 40 minutos mais longos da minha vida.
A música eletrônica não para de tocar e esporadicamente uma visão: uma senhorita, uma senhora ou uma vovó balbuciam, como se conhecessem a melodia mas não a letra. Nem sei se realmente não cantam, afinal no meio desse barulho não é possível comprovar minha tese.
Eu entendi porque a loja se chama Forever 21. A sensação que você tem é que o martírio nunca irá acabar.
Apesar do som “ambiente” ser ensurdecedor, meu filho homônimo continua ali, dormindo um sono profundo - imagino - para fazer inveja. Estou condenado a passar por tudo sozinho, sem ao menos alguém para dividir minha dor existencial.
Na metade do meu Gólgota, minha esposa aparece com uma sacola cheia de roupas e olha para o carrinho onde o pequeno Rogério descansa. Mostra-se admirada com a paz que o garoto transmite. Me dá um beijo e fala que vai “ali rapidinho” por a prova as trinta e oito peças que achou interessante. Recomenda antes de ir que eu mantenha a paciência, afinal algumas mulheres estão na frente dela com o mesmo objetivo.
Quando ela se retira, movido pela curiosidade, levanto a cabeça em direção à aglomeração citada. A fila para o provador se estende corredor afora até onde a visão não alcança, quiça do andar ou do quarteirão.
Nesse momento, para passar o tempo, imagino que se fosse empreendedor poderia vender água, suco e refrigerante ou até geladinho. Afinal, tantas mulheres bem vestidas já tiraram seus sapatos alto de luxo, amarraram os cabelos e removeram os maxi brincos; que dificuldade teriam de chupar um sacolé, ali mesmo, no meio do shopping Morumbi?
Outra possibilidade seria anunciar para o nobre grupo de compradoras: “GÁS VAZANDO”. Desisto rápido dessa hipótese, já que seria fácil identificar o meliante que esta causando o transtorno público.
Meu pensamento é cortado pelo serviço de alto-falante. Pausa na balada adolescente-dançante-estridente para o anúncio que “o número máximo de peças a ser provado é de seis. Caso possua mais peças que o permitido, deve-se voltar ao final da fila para experimentar as excedentes”.
Minha vontade é sair correndo e deixar tudo ali: música eletrônica, carrinho de bebê, esposa, roupas, adolescentes desvairadas, vovós da moda…
No carro minha esposa confessa: “Você é um homem maravilhoso. Não reclamou de esperar, merece uma recompensa”. E eu ali quietinho penso como esse tal de Fernando é foda:
“Quem quer passar além do bojador
Tem que passar além da dor”.
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